Obra de Leonilson trata da pulsão do ser e, singela, traz retrato da passagem humana

César Augusto Alves - Hoje em Dia
09/08/2015 às 12:01.
Atualizado em 17/11/2021 às 01:17
 (Eugênio Moraes)

(Eugênio Moraes)

Entre linhas bordadas e pinceladas, é possível perceber a subversão da alma de Leonilson, e seu cuidado com as pessoas. Tintas e telas também aparecem (mesmo em obras nas quais o artista expõe o chassi de madeira, não a tela), no entanto, o cearense se expõe sem seguir conceitos clássicos de sua escola artística e, por meio de verdadeiros poemas, mistura palavras, tecidos, sangue e sutileza. Uma sutil rejeição aos padrões e uma aceitação de suas próprias diferenças.

Embora a exposição não seja apresentada de forma cronológica, é possível observar suas obras em uma linha do tempo, percebendo facilmente como Leonilson amava viver, se apaixonar por “rapazes”, como assim dizia, e retratar os mais simples e verdadeiros questionamentos internos e sociais.

O artista potencializa a faceta questionadora de sua arte, dando a ela uma voz tanto interna – que, de modo filosófico e poético, questiona a sua própria, e (por que não?) a nossa existência –, como também consegue problematizar flagelos sociais do convívio dessa mesma existência com o mundo que a sustenta.

Leonilson tenta se compreender, nos levando neste barco, em tudo o que faz, de maneira emblemática e forte. O uso de palavras cresce o significado e impacta em obras como “Pobre Sebastião”, de 1993, final de sua carreira. Obra, aliás, que integra a sala de maior significado da exposição, quando Leonilson joga em telas suas impressões sobre a finitude da vida – o artista, a esta época, sofria com a descoberta da AIDS – e o que somos diante do fim. “The game is over, no one to dedicate”, diz ele em uma das telas.

Idealismo e ironia

O diário de sua vida é exposto em delicados bordados e palavras por onde discorre sobre seus amores, viagens, família, perfeições e imperfeições. Não vê problemas em se admitir mentiroso em uma obra, ou se perceber somente um ser que representa números neste vasto mundo, quando se olha no espelho, em outra. Leonilson retrata um ideal romântico, ao mesmo tempo em que o desconstrói de maneira irônica, assim como também faz com a Igreja, inserindo o feminino no sagrado masculino. A obra de Leonilson trata da pulsão do ser, e traz, tão singelo quanto deveria ser, um retrato da passagem humana.
 

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