Maia revela como foi documentar a polêmica vida do craque
(Feel the Match)
Em 22 anos de carreira, Bruno Maia se destacou na indústria da comunicação e do esporte por um perfil que concilia capacidades executivas e artísticas. Atualmente desenvolve um trabalho focado em inovação e entretenimento no esporte através da Feel The Match, empresa criada por ele em 2021.
Romário - O Cara” é fruto desse perfil. Além de ter sido o criador do formato e produtor da série, Maia também voltou à direção, atividade que não exercia desde 2019. A série é a maior já feita sobre um jogador de futebol e é uma produção original da plataforma Max (Warner Bros Discovery). Em 2022, Maia foi produtor e diretor da série “Nos Armários dos Vestiários” (Globo) que abordou de maneira inédita a homofobia no futebol brasileiro.
Além disso, Maia é sócio da 14, agência de estratégia, gestão e produção de conteúdo fundada em 2008, e uma das pioneiras no Brasil na produção de conteúdo estratégico para marcas.
Há mais de 16 anos no mercado, a agência 14 possui em seu portfólio trabalhos com empresas como Rock in Rio, Comitê Olímpico do Brasil, Coca-Cola, Uber, Enel, Anistia Internacional, InfoGlobo, Universal Music Brasil, Twitter, entre outros.
(Feel the Match)
Maia também é autor do elogiado livro “Inovação é o Novo Marketing - Insight de negócios para o futebol”, lançado em 2020, que repercutiu bastante e marcou uma fase de mudanças de tipos de negócios no futebol, diante das novas tecnologias.
O diretor bateu um papo com o Hoje em Dia e traduziu em palavras como foi conviver, mostrar, e revelar bastidores da vida de um dos maiores jogadores de futebol de todos os tempos.
Como é fazer a série com um personagem polêmico, sem “filtro na língua”? Ele participou da edição?
É um privilégio. Na verdade, para quem trabalha em algum grau com dramaturgia, apesar de ser uma série documental, a gente trabalhou muito com estrutura narrativa de ficção para montar, para ter a sensação que o espectador tem quando o episódio acaba, ficar ligado, ficar na adrenalina para seguir assistindo. Então, quando a gente trabalha com esse tipo de linguagem, as polêmicas e as controvérsias do personagem acabam nos ajudando muito a desenhar uma estrutura narrativa mais dinâmica. É muita coisa acontecendo e, para uma boa história, isso é fundamental. Não adianta o cara só ser campeão. É importante que a história dele seja boa. Então, essa característica do Romário certamente ajudou muito. Ele não acompanhou absolutamente nada de edição. O Romário teve participação zero no processo, em qualquer processo da série. Ele nos deu total liberdade para fazê-la e, na verdade, só teve contato com a série e só assistiu no ar, como todo mundo. Foi muito bacana esse espaço para a gente trabalhar. Ele deixou a gente bem à vontade e acho que essa liberdade se reflete no conteúdo na série.
Quais os principais desafios você encontrou para fazer esse material? Foi mais difícil fazer as gravações ou selecionar o que iria ao ar? Quantos meses de produção, quantas horas de gravação?
É difícil elencar o que foi mais complicado. Certamente a produção, com mais de 80 entrevistas ainda durante um contexto de Covid, com várias restrições sanitárias, barreiras em vários territórios, foi um grande desafio. E o mérito não é meu, são duas equipes muito especiais: a Feel The Match, que é a minha produtora, e a Kromaki, coprodutora que trabalhou com a gente. Outras inúmeras pessoas se juntaram ao processo de produção, que é, enfim, muito complicado. Tivemos muito suporte da Warner Bros. Discovery para poder fazer tudo isso, para poder fazer as adaptações e mudanças que foram necessárias e que garantiram que tudo isso acontecesse. Eles foram muito parceiros nossos, a Max sempre acreditou muito no projeto e nos deu a condição de fazê-lo no Brasil, com produtores brasileiros, sobre uma história brasileira, com características que normalmente a gente só vê em material sobre ídolos de outros países, especialmente norte-americanos, então a gente valoriza muito isso. Tudo isso foi muito importante. Claro que o processo de seleção de material e edição também demandou tempo e esforço. Ainda sobre dificuldade, vale citar sobre o licenciamento de tantos materiais, de tantos países. Fizemos muitas negociações para poder ter todas as autorizações jurídicas necessárias para cada um desses materiais, e isso levou bastante tempo.
(Feel the Match)
Você recebeu algum feedback marcante de alguém que assistiu a série? Pode compartilhar?
Nossa, são tantos feedbacks positivos. O que mais tem chamado a nossa atenção é o tom dos comentários. Não vou dizer de unanimidade, porque nunca se é unânime, mas são raríssimos os comentários que dão foco a um aspecto negativo ou alguma coisa que não gostaram na série. Eles até existem, mas geralmente vêm depois de vários pontos elogiosos. Então, essa repercussão em termos de público e crítica é muito importante. Mas tiveram algumas ocasiões mais marcantes sim. A gente participou de um programa da Rádio Transamérica com o José Calil, lá de São Paulo, e é um programa popular com muita gente já tarde da noite. E veio uma audiência muito popular, eram porteiros, motociclistas, gente que estava voltando do trabalho. Houve interações da audiência falando das entrevistas, das emoções, sentindo, comentando pontos específicos da série. Apesar de já ter se expandido, o serviço de streaming ainda é uma tecnologia acessada, em sua maioria, por classes sociais mais privilegiadas. E ver que a série está chegando em todos os públicos, gerando emoções e conversas, é muito legal. É uma série, no meu ponto de vista, muito emotiva, e não foram poucos os feedbacks que me emocionaram bastante.
O Romário falou várias vezes durante os episódios sobre não treinar, não ser um profissional ideal. Como administrar isso como “exemplo” para futuros atletas?
Na verdade, o Romário não fala sobre não treinar, ele fala sobre não fazer determinados tipos de treinamento que ele entendia que não o ajudavam a performar. Pelo contrário, em vários momentos diversas pessoas aparecem dizendo como ele era disciplinado para fazer exercícios, por exemplo, de arranque, de finalização, de conclusão de jogada. O Romário tinha uma visão muito à frente do seu tempo, hoje em dia quase todos os atletas trabalham com treinos específicos para cada um deles. O Romário era de uma época em que os treinos eram iguais para todo mundo, para o lateral direito, para o goleiro e para o atacante, e ele já se insurgia contra isso, ele entendia que o treinamento dele precisava ser diferente, e pela cultura da época isso era entendido como indisciplina, não se tinha noção do que se tem hoje. Atualmente, o Romário não seria indisciplinado por esse aspecto, não seria definitivamente, e a série também coloca isso no lugar, de tirar isso do imaginário popular, corrigir essa certa distorção sobre a relação dele com o treino. Ele não gostava de certos treinamentos porque entendia que eram treinos burros, que não geravam resultado, ao passo que quando tinha alguma coisa realmente relevante, ele sempre se dedicava muito, e é isso. O cara que jogou até 41 anos e com 39 foi artilheiro no Campeonato Brasileiro, a gente não pode dizer que ele não tinha esse cuidado, né?
(Feel the Match)
Romário é um senador ativo, atuando inclusive na “CPI de manipulação de resultados”. Como foi tirar o tema política da série?
Foi muito tranquilo tirar o tema política da série, porque eu sou autor, criador da história, e em nenhum momento me interessou falar sobre isso. Não era um pedido do Romário, não era um pedido de ninguém. Queríamos contar a história de 1992 a 1994 e essa história eu acho espetacular. No meu ponto de vista, as melhores histórias não são as histórias dos grandes personagens, mas sim quando um grande personagem tem uma baita história e o Romário tem algumas. A trajetória dele entre 92 e 94, que é o grande condutor da série, é absolutamente espetacular. Tudo que aconteceu na vida daquele cara em um ano e meio, de ele sair de uma briga que o tirou da seleção e, um ano e meio depois, ser campeão do mundo, melhor do mundo. Se a gente observar bem, todos os outros aspectos anteriores da trajetória do Romário, que a série também conta, aparecem a partir de gatilhos que a história principal traz e para a gente explicar e entender determinadas decisões, é importante voltar e entender outros contextos. A história que queríamos era aquela lá, não tivemos o objetivo de abordar a carreira inteira do Romário - e a série mesmo vai até o ano de 94 -, que dirá com outros aspectos fora de campo. Posso dizer que o aspecto que me interessa desse personagem é a atuação dele no campo, então foi bem tranquilo.
Depois de todos os episódios terem ido ao ar, você chegou a falar com o Romário? Ele te deu algum retorno? E existe a chance de vir uma segunda temporada?
Sim, o Romário gostou muito, ficou muito feliz, tem externalizado isso, tem dito que a gente desde o início provocou nele uma expectativa muito grande sobre o que queríamos fazer. Ele confiou e agora diz que conseguimos entregar acima do que ele esperava, o que é muito bacana. Ele deu toda a liberdade para trabalharmos, não pediu nada, então, o mínimo que deveríamos retribuir é entregando uma série que o cara ficasse satisfeito de ver aquilo ali. E o satisfeito dele não é o de jogar confete, pelo contrário, ele sempre foi um cara que instigou a gente a procurar pessoas e deu dicas de nomes de pessoas que sabiam de podres, de situações difíceis, de situações polêmicas dele e nos incentivou a ir atrás disso. É um cara que deu toda a liberdade, não se preocupou em impor nenhum tipo de censura, de filtro. Sobre a segunda temporada, é uma pergunta que tem sido frequente e que me envaidece muito. Realmente não é comum ver uma série documental que as pessoas querem a segunda temporada, afinal, tudo que vai acontecendo depois as pessoas já sabem, mas isso valoriza a força da narrativa, a força do nosso trabalho de contar a história de um jeito original. Mas estamos ainda em uma fase de lançamento do projeto, não tem nem um mês que ele foi ao ar, vai ter hora de conversarmos sobre isso sim, mas essa hora ainda não chegou.
Você pensa em fazer mais séries com algum outro personagem esportivo?
Sim, vamos fazer outras séries, a Feel the Match, minha produtora, tem esse foco. Agora está começando, por exemplo, uma produção junto ao SporTV e à Globo sobre a máfia do apito, uma série para ser lançada no ano que vem, que marcará 20 anos daquele escândalo de arbitragem que abalou o futebol brasileiro, o primeiro caso envolvendo apostas esportivas, um tema que hoje está em voga. Tem outras na fila também, quem sabe em breve a gente pode contar, mas sim, tem mais coisa para vir, com certeza.
(Feel the Match)
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