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Agosto costuma ser mês de mau humor nos mercados, mas a última terça-feira (19) entrou para o álbum de “quedas que ninguém pediu”. O Ibovespa escorregou 2,10%, estacionando nos 134.432 pontos, o pior pregão nos últimos quatro meses. Mas não foi uma queda qualquer, teve drama político, susto bancário e aquele cheiro de pânico que só as mesas de operação conhecem.
O grande motor da desvalorização? Uma decisão do ministro Flávio Dino, do STF, que decretou que leis e decisões judiciais estrangeiras só valem por aqui se a Justiça brasileira der o carimbo. Para os investidores, o recado soou como mais incerteza regulatória, especialmente no que diz respeito a possíveis sanções internacionais.
O setor bancário sentiu a pressão primeiro. Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Santander e BTG Pactual juntos perderam cerca de R$ 42 bilhões em valor de mercado, um impacto expressivo para apenas um pregão. Diante da incerteza, a reação foi clássica, venda de ações e corrida para o dólar como porto seguro.
Investidores reagiram como sempre reagem quando não entendem nada, venderam ações, compraram dólar e torceram para alguém explicar depois.
Exatamente três dias depois, nesta sexta (22), esquecemos a tal insegurança jurídica local e voltamos nossa atenção para um pronunciamento importante. Jerome Powell, presidente do Fed, foi aos microfones e, em seu discurso no simpósio de Jackson Hole, com aquele jeito de quem pesa cada palavra como se fosse ouro, mexeu com meio mundo financeiro.
Ao admitir que o mercado de trabalho anda perdendo força e que a inflação parece menos ameaçadora, o presidente do Fed deu ao mercado o que ele mais queria, esperança de juros mais baixos.
Bastou a perspectiva de dois possíveis cortes de juros americanos ainda este ano para o dólar tropeçar globalmente e o Ibovespa disparar, como se alguém tivesse aberto as janelas para o ar fresco da liquidez voltar a circular.
A reação foi quase instantânea, apostas para um corte já na reunião de setembro pularam para algo entre 85% e 90%. O detalhe irônico é que Powell não prometeu nada, apenas disse que “os dados vão guiar as decisões”. Mas o mercado ouviu “vem aí corte de juros” e começou a celebrar antes mesmo do próximo relatório de inflação sair. É a clássica história do copo meio cheio, ou, no caso dos traders, meio cheio de estímulos.
Para o Brasil, a música soou ainda mais doce, dólar em queda, B3 animada e a perspectiva de uma política monetária americana menos hostil podem dar mais fôlego para o real e aliviar pressões por aqui. Claro, tudo depende de como os dados americanos se comportam até 17 de setembro, mas, por ora, Powell conseguiu o que poucos banqueiros centrais conseguem, mexer com as expectativas sem dizer quase nada. E o mercado, agradecido, já sonha com a volta do dinheiro barato.
Essa perspectiva positiva acontece porque o corte de juros por lá, aliado à nossa Selic em 15%, proporciona um fluxo migratório em busca de oportunidades e de dinheiro fácil, até que comece o ciclo de corte de juros por aqui.
Portanto, quem pensa em dolarizar no curto prazo deve ficar atento, pois pode surgir uma oportunidade de um dólar mais baixo, talvez trabalhando próximo ou até abaixo dos R$ 5,30 pela primeira vez no ano.