Sinto-me cercado por todos os lados e pela inclemência do tempo. Sobretudo pela multidão de livros, que me transmitem tudo que exista ou inexista na face da Terra, no cotidiano estigmatizado pela dor e pela necessidade do imprescindível ao viver de cada um, incentivado pela esperança que move cada um em busca de paz, amor e liberdade, de tudo que lhe conhece.
Mesmo na biblioteca múltipla, intenso o frio, percebo o calor que envolve inúmeras histórias, a poesia em muitos idiomas e que transmite o sentimento de corações, muitos dos quais não mais pulsam, mas que sabemos estar à esquerda e direita, diante dos olhos. São ânimo e vigor na insegura existência humana.
Intelectuais ilustres, excelentes homens das letras e da história, deixaram as montanhas e se deslocaram a lindas praias, nomes celebrados, buscando realçar o nome que os grandes centros urbanos possibilitam. Flávia de Queiroz Lima fez o itinerário em sentido contrário. Nascida no Rio de Janeiro, estudou piano no Conservatório Brasileiro de Música, lá também se formou em Sociologia e Política na PUC, pós-graduou-se em Gestão Pública já em Minas; mas não se furtou à participação em movimentos de música popular brasileira. Assim é sua vida.
Na antiga Cidade de Minas, veio, viu e ficou. Carioca, amineirou-se. Faz-me recordar Edson Guedes de Morais, natural de Jaboatão de Guararapes, professor em Brasília, poeta, contista, desenhista, jornalista, analista de finanças, uma imensidão de coisas, que decidiu voltar ao estado natal e se consagrar como editor. Ei-lo conduzido pela fascinação, tirando da cartola os coelhos da poesia, miraculosos, fantasias da mais fina artesania.
Nas montanhas que a tantos já atraiu e que a ela agora pertencem, Flávia tomou acento em funções adequadas na Academia Mineira de Letras, preparando-se para festejar os oitenta anos de vida, que não aparenta, pois menos da metade demonstraria somar.
Ela, mineira ou carioca, sabe das coisas deste mundo: “O olhar descobre o invisível quando interroga o silêncio, debruçado no infinito de sentimentos avulsos, seguindo impulsos e esperas, se desdobrando no apuro, nas sedentas descobertas do que habita atrás dos muros”.